O artigo desta semana é sobre um tema solicitado pelo grupo: dor abdominal funcional e uso de antidepressivos em crianças.
Neste estudo retrospectivo, publicado no JPGN em 2017, os autores avaliaram pacientes pediátricos atendidos em um intervalo de 8 anos com queixa de dor abdominal. Foram incluídos 192 pacientes com diagnóstico de dor abdominal funcional ou Síndrome do Intestino Irritável e em uso de antidepressivos de duas classes diferentes:
- Inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS – citalopram, escitalopram, fluoxetina, paroxetina, sertralina)
- Antidepressivos tricíclicos (ADT – amitriptilina e nortriptilina).
Os autores compararam estes dois grupos para eficácia (redução de dor abdominal) e efeitos colaterais.
Os resultados foram: 75% dos pacientes que usaram ISRS mostraram redução da dor, enquanto que 61% dos pacientes do grupo ADT tiveram resposta, e a diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa (p=0,03).
Em relação aos efeitos adversos, em torno de 25% dos pacientes tiveram efeitos adversos não graves (em ambos os grupos). Em 14-17% dos pacientes estes efeitos adversos, ainda que leves, foram suficientes para descontinuação da medicação.
Os autores discutem que EM ADULTOS o uso de ADT para dor abdominal funcional é mais consagrado. Entretanto, aparentemente, crianças respondem melhor aos ISRS. Isto é curioso e pode sugerir que os mecanismos fisiopatológicos envolvidos sejam diferentes entre adultos e crianças. Os ADTs têm um papel maior na neuromodulação da dor, enquanto os ISRS, ainda que também sejam moduladores, parecem estar mais relacionados ao tratamento das comorbidades comumente associadas – ansiedade e depressão.
Finalmente, como informação prática, os autores descrevem as doses de:
- ADT: 0,1 – 0,5mg/kg (dose máxima segura de 50mg ou 1mg/kg)
- ISRS: dose inicial de 5-10mg/dia (chegando a 60-200mg/dia – mas as doses altas foram prescritas por psiquiatras, e não pelos gastropediatras).
Nós, pediatras e gastropediatras, temos muito receio de iniciar medicações psiquiátricas para nossos pacientes. Entretanto, delegar ao psiquiatra pode atrasar muito o tratamento do paciente. O artigo discute que não precisamos ter tanto receio dos efeitos adversos, e que as doses iniciais já mostram resposta terapêutica e são seguras na infância.
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