Artigo da Semana 🧠
Autoras: Claudia Ambrosi e Márcia Grisotti
Ciência & Saúde Coletiva, 27(11):4243-4251, 2022
📍 O objetivo deste artigo é analisar o conteúdo do Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB), que é um dos principais instrumentos das políticas públicas relacionadas à alimentação no Brasil, à luz de conceitos da teoria social, em especial teorias da modernidade, da identidade e dos riscos.
👉🏼 O GAPB é um documento oficial que aborda princípios e recomendações de uma alimentação adequada e saudável e se configura como um instrumento de apoio às ações de educação alimentar e nutricional.
O ato de se alimentar tem função estruturante na organização de um grupo humano.
A realidade brasileira é marcada por um padrão de ampla diversidade alimentar, que, ao mesmo tempo, é afetada pela grande desigualdade social de acessibilidade aos recursos e à falta de equidade entre a população. A escolha da dieta alimentar não está fundamentada apenas em recomendações nutricionais institucionalizadas, uma vez que abrange outras instâncias da vida, sendo que suas decisões são influenciadas por uma miríade de opções, que dependem do ambiente e de fatores estruturais que foram dimensionados historicamente.
- Na modernidade, teria ocorrido um efeito de quebra do vínculo entre alimento e natureza. Assim, associado ao processo de industrialização, o alimento chega ao consumidor sem identidade, sem qualidade simbólica, sem alma”, ou seja, dessocializado. Por conseguinte, a transformação de receitas pela industrialização colocou em pauta uma grande distinção entre o que é alimento de verdade e o que é produto alimentício.
A primeira versão do GAPB, lançada em 2006, apresentou diretrizes alimentares oficiais para a população brasileira, sendo considerado referência para indivíduos, profissionais e gestores de saúde. Porém, embora contemplasse mais alertas sobre os riscos do que a versão atual, as atuais transformações sociais vivenciadas pela sociedade causaram novos impactos sobre as condições de saúde e nutrição. O aumento das doenças crônicas e a estreita relação com a alimentação aumentou a demanda por atualização do guia. A segunda edição do GAPB exibe um diferencial que tem sido reconhecido internacionalmente, os padrões de adequação e as recomendações que foram publicados têm fundamento nas culturas regionais e tradicionais do país. Além disso, usou como referência os alimentos, não apenas os nutrientes, uma vez que estes se afastam da percepção cotidiana da população. Por esses motivos, o guia vem sendo elogiado no meio acadêmico, sobretudo, por oferecer incentivo à população para o consumo de “comida de verdade”. Destaca-se especialmente na questão da limitação do uso de alimentos ultra processados.
👉🏼 Uma inovação importante foi novo sistema de classificação de alimentos, denominado NOVA, que divide os alimentos conforme grau, tipo e propósito de processamento. Uma preocupação crucial do GAPB foi diferenciar as categorias de alimentos e seus níveis de processamento, sendo os seguintes termos: alimentos in natura ou minimamente processados; ingredientes culinários processados; alimentos processados; e alimentos ultra processados. Alguns pesquisadores argumentaram que seria inútil recomendar o consumo baseado em grupos alimentares, tal qual o guia americano da pirâmide alimentar, pois, no mesmo grupo, há cereais integrais e matinais e, neste caso, os dois têm sistemas de produção/manufatura, processamento, conservação e logística diferentes. Consequentemente, os alimentos podem estar classificados em um mesmo grupo dietético, mas têm potencial para provocar efeitos metabólicos desiguais em longo prazo.
As sociedades têm códigos complexos e elaborados sobre a comida e sobre o ato de comer: maneiras à mesa, culinárias, regras sobre os pratos, o que pedir primeiro, o que pedir como prato principal, o que pedir como sobremesa, como se portar, o que combina ou não combina, o que beber. Enfim, há regras e leis implícitas em todas as culturas sobre o que alguém deve ou não comer. Por outro lado, porém, existe a literatura que trata sobre nutrição, com regras baseadas em nutrientes, calorias, proteínas, vitaminas. Em toda essa profusão e difusão de informações, os discursos gastronômicos se confundem com os discursos dietéticos. Sendo assim, as normas sociais e dietéticas não se excluem, mas se influenciam.
Apesar dos elogios, foram também feitas críticas ao GAPB:
- Falta de clareza sobre a quantidade ideal no consumo de alimentos industrializados e/ou ultra processados.
- Omissão referente aos alimentos transgênicos: a luz do conhecimento científico que temos hoje, sabemos que existem práticas desejáveis e outras tantas desfavoráveis em relação aos transgênicos.
Os modos de comer são estruturantes da organização social, influenciando a sociabilidade e o prazer de comer. O guia inovou ao considerar e valorizar a comensalidade e o modo como se come, entendendo que características como tempo, atenção e companhia à mesa são determinantes para uma alimentação saudável e para a saúde. Todo pediatra deve saber da existência do GAPB, bem como seu conteúdo. Como agentes promotores de saúde é indispensável saber recomendar estilo de vida saudável tendo em vista o recorte social em que seu paciente está inserido.
Clique aqui e confira em anexo a edição do GAPB.