Artigo da Semana 🧠
As redes sociais estão pipocando com este tema – e, como não podia deixar de ser – o charlatanismo está tomando conta.
Por isso, é essencial estudarmos, entendermos e orientarmos adequadamente nossos pacientes sobre INTOLERÂNCIA À HISTAMINA.
👉🏼 Esta doença realmente existe. Porém está muito distante de ser tão comum como a moda do Instagram quer fazer acreditar.
A intolerância à histamina é uma hipersensibilidade alimentar não imunomediada (vulgo “intolerância alimentar”), tal qual é a intolerância à lactose.
A nossa principal fonte exógena de histamina são alimentos, especialmente aqueles que passaram por processos de conservação, como queijos, peixes enlatados e alguns peixes gordurosos (atum, salmão, sardinha, anchova), embutidos, vinho, cerveja, chocolate, além de ovos e vegetais como tomate, espinafre, abacate, limão, laranja, uva e morango.
✍🏼 Na intolerância à histamina ocorre uma redução ou deficiência de uma enzima chamada DAO (diamina oxidase), presente nos enterócitos, que degrada a histamina. Quando esta enzima falta, sobra histamina.
Acontece que a histamina é um mediador neuro-imuno-endócrino que influencia inúmeras funções no organismo – ou seja: o excesso de histamina pode causar inúmeros sintomas totalmente inespecíficos.
E aí vem a raiz do charlatanismo.
Cefaleia, flushing (aquele vermelhão no corpo), prurido, urticária, rinite, dispneia, tosse, taquicardia, congestão nasal, dor abdominal, diarreia, constipação, náuseas, vômitos, plenitude pós prandial, flatulência, até dismenorreia…!
📌 Todos esses sintomas podem ser por intolerância à histamina, mas não apenas. Existem inúmeros outros diagnósticos diferenciais (mais comuns, inclusive) que explicam os mesmos sintomas.
Infelizmente, tudo que é muito inespecífico e não tem exames complementares validados abre a porta da medicina baseada em achismo.
No artigo de revisão desta semana os autores destacam estes pontos, e alguns outros que considerei muito relevantes:
1️⃣ Não há teste validado e disponível na prática clínica para diagnóstico. A dosagem de DAO (que está SUPER na moda) pode ter um papel complementar, porém os valores para definir níveis baixos ou mesmo deficiência da enzima ainda não foram estipulados. Não deve ser solicitado na rotina clínica.
2️⃣ O diagnóstico é clínico depois de afastar diagnósticos diferenciais como alergia alimentar IgE-mediada, mastocitose, drogas que podem interferir com o metabolismo da histamina (dipirona, ibuprofeno e até o “inocente” ambroxol são exemplos).
3️⃣ O passo a passo diagnóstico inclui indicar uma dieta de exclusão de alimentos contendo histamina e outras aminas bioativas por 4-8 semanas (o que, na prática, é bastante difícil, considerando que não temos o exato teor de histamina de cada alimento). Se houve melhora clínica, é feito reintrodução dos alimentos (teste de provocação oral, por até 6 semanas) e avaliação de sintomas.
4️⃣ O tratamento inclui dieta com baixo teor de histamina, conforme tolerância do paciente.
5️⃣ A suplementação de DAO tem sido proposta, porém ainda não há estudos clínicos randomizados que testem a eficácia e os efeitos adversos destas medicações – portanto, ainda não está indicado clinicamente.
6️⃣ Eventualmente podem ser necessários anti-histamínicos do tipo anti-H1 e anti-H2, porém em casos selecionados.
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